quarta-feira, 13 de maio de 2009

Parte I.

[não esperem muito, eu escrevi isso antes de dormir e eu escrevo que nem minha cara. e outra coisa, não é pra crianças, viu. não leia se você for ficar ofendidinho com palavrões ou sei lá o que. eu tava pensando na vida e essa história veio na minha cabeça há uns dias atras. então eu sentei e digitei. amanhã eu posto a Parte II]



O despertador acabou de tocar, mas já estou acordado há quase uma hora. Há anos não consigo dormir por muito tempo. Eu deito e fico olhando o teto, pensando na vida, elaborando poemas na cabeça ou ouvindo um blues. Depois de umas horas durmo. E assim que o sol entra na janela eu acordo. E já levanto.
Eu moro num apartamento bem pequeno na Vila Madalena, que meus pais compraram pra mim quando eu fiz 18 anos. Eles tinham muito dinheiro e mal poderiam esperar pra se livrar de mim. Eu sempre fui muito quieto e nunca dei verdadeiros problemas, mas minha mãe sempre me diz que se sentia culpada toda vez que olhava pra mim e via nos meus olhos meu desconcerto com o mundo. Pra evitar sentir culpa, evitava olhar pra mim. Meu pai bebia bastante, e tratava minha mãe muito mal. Mesmo com esse negócio da culpa e tudo o mais, sempre fui muito com a cara dela. Ela realmente se sentia mal pelo o que eu estava me tornando, mas apenas não sabia o que fazer. Meu pai queria que eu fosse médico. Eu quis ser professor de história. Minha mãe dizia que eu ia me tornar alguém culto e me mandou pra faculdade de história. Meu pai nunca engoliu. Sempre faz questão de contar à todos como eu sou uma decepção por gostar de Alexandre e não estar nem aí pro consultório e tudo o mais. 'O Grande?? Grande? Isso é coisa pra veado, que piada!'. E ri. Então ele me deu esse apartamento e disse que eu podia dividir com alguém. Sempre dividi com garotas. Namoradas e tudo o mais. Nenhuma fica muito tempo. Agora eu moro com um camarada chamado Antônio, que faz a mesma faculdade que eu fiz. Ele é mais ou menos da minha idade, um pouco mais novo. Não sei quase nada sobre ele, só sei que tem muitos amigos e tem sonhos eróticos com a Pamela Anderson, porque ele fala muito alto quando dorme. E tem um senso de humor meio estranho.
Vou andando até o banheiro para mijar, escovar os dentes, tomar banho, a coisa toda. Me olho no espelho e vejo aquela figura da qual fugi e reneguei por tanto tempo, há tanto tempo. Sim, me tornei meu pai. A barba mal feita, os olhos meio vermelhos. Tenho apenas 25 anos, mas aparento muito mais. Até aquela barriga escrota que ele sempre teve, eu já tenho. Acho que é por causa da cerveja. Uma coisa em comum nós temos, o gosto pela bebida. Aliás, a ressaca está me matando. Acho que não posso mais beber dessa maneira. Foda-se. Ninguém se importa, realmente. Tirando uma ou outra vagabunda de vez em quando e alguns amigos também professores tão fudidos quanto eu, não tenho mais ninguém. Entretanto, não sou o que se chamaria de infeliz. Gosto daqueles muleques na escola, de quando eles mostram estar aprendendo alguma coisa ou simplesmente dando a mínima pras coisas que eu falo. Eu realmente gosto das coisas que ensino, mas quase nunca vale a pena ser professor. Gosto de achar um disco bom por um preço baixo. Também gosto quando há lugar pra sentar no metrô. Sentar num balcão de bar e beber toda noite enquanto falo sozinho com alguém que não está lá, geralmente pessoas mortas, é um hábito que adquiri com os anos, mas não me torna tão patético quanto as outras coisas. Um pouco menos, acho. Sei lá, depende de como se olha. Não espero que ninguém entenda. Só quero que me deixem em paz.
Um barulho na porta me desperta dos pensamentos.
- Caralho, você tem mesmo que demorar tanto no chuveiro, porra? Deve estar batendo uma punheta, aí.
Esse tipo de coisa não me dá vontade de responder. Quase nada do que ele fala eu gosto de responder. Sempre achei que é por isso que me dou bem com ele, quase não há conversa. Se quer ter um relacionamento cem por cento com alguém que não gosta muito, é só não conversar com ela. Entre eu e o Antônio dá certo. Sei que ele me acha estranho, mas ele tráz uns livros bons da faculdade. E ele gosta de quando eu toco a gaita. Então dá certo. Pelo menos até agora.
Vou perder o ônibus pro metrô. Melhor correr.

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