- Chico! Chicão!
Olho pro lado. A primeira coisa que penso é: 'Quem será esse imbecil?'. Usa tênis, logo não é do colégio, lá não é permitido. Babacas. Como se o que você enfia no pé fosse mudar o seu jeito de ensinar ou como os alunos te vêem. Bom, no fundo muda sim, pelo menos esse lance dos alunos. Pra dizer a verdade, essa regra foi inventada depois de umas coisas que aconteceram ano passado. É aquela maldita história de idade. Eles acham que se você usa tênis é porque se recusa a agir de acordo com a idade que tem, os alunos te veem como jovem. Puta merda! Porque alguém haveria de querer se sentir com 17 se sabe que tem 27 e se sente com 27? Eu ouço as pessoas dizendo o tempo todo de como tem saudade da adolescência, que foi uma época incrível, que agora nada mais é como era. Só se for pra eles. Não me lembro de ter me sentido mais perdido na vida do que quado eu tinha de fato 17 anos. Aqueles anos são anos de terrivel ignorância. Você não sabe NADA. Não pode NADA. Não sabe dirigir, não pode beber, não tem profissão, não saber administrar uma casa, não sabe se fica com aquela ou com a outra, não sabe o que vestir, o que falar, o que fazer com as mãos, não sabe nada da vida. Sinceramente não vejo como sentir tanta saudade de estar perdido, sozinho e em plena ignorância. E também não acho que todas essas sensações voltam só de colocar um Converse no pé. Mas... eu usava tênis, sempre. A verdade é que não me sinto na beira dos trinta. Me sinto mais perdido do que nunca.
- Hey.
- E aí, Fransisco! Poxa, você é um homem, hein. Me lembro de você cheio de espinhas, gritando com a sua mãe, de tênis no pé e ameaçando fugir de casa... hehehê, como o tempo voa.
Okay. Esse otário é amigo dos meus pais. E tem que me lembrar dessas coisas, como se eu já não estivesse lembrando agora mesmo. Dou um sorriso meio amarelo, meio irônico. Idiotas como esses que sempre estão pensando em si mesmos nunca entendem ironia.
- Ninguém nunca me levou a sério.
- É, ninguém achou que você ia fugir de casa.
- Mas de um jeito ou de outro, eu fugi.
Agora eu peguei ele. O desgraçado nem sabe o que responder. Vou curtir o momento. MAs uma coisa me irrita. Eu ainda não lembrei o nome dele. E está me dando sede, meus sapatos estão apertando. Droga, como eu odeio andar uma hora de metrô pra ir trabalhar. Um uisque ia bem.
- Você não fugiu de casa...
- Fugi sim.
- Fugir de casa depende de coragem, e não de covardia como foi com você.
Ai. Agora ele é quem me pegou. Mas não foi covardia, na verdade. Eu saí quando não tinha ninguém em casa, não fiz aquele discurso arrebatador, à soleira da porta, segurando as malas e meu gato. Mas eu saí. A gente aprende que esse negócio de honra é uma palhaçada. Não importa. Eu saí, não saí? É como no futebol, o que importa são os três pontos.
- Olha... como é seu nome, mesmo? - antes de ele responder me deu uma sede imensa - Bom, porque a gente não vai tomar um uisque e conversa sobre covardia e coragem e toda essa merda?
Aí ele me vem com uma bomba.
- Chico... por favor. Eu achei que depois do que aconteceu ano passado você tivesse tomando mais cuidado com o seu trabalho.
- Ah, pelo amor de Deus! Você também! Parem de falar sobre isso, que merda! Não aconteceu nada demais, eu estou trabalhando, não estou! é porque o seu Jorge sabe que não há nada demais. E ele é o diretor, não é! E outra coisa, o pai da Lívia é um idiota de tirar ela da escola por uma coisa dessas. Até parece que ela não bebe por aí com as amigas, qual a diferença, que droga! Ela nao é uma menina qualquer, como aquele monte que tem na Santa Rita. E QUE MERDA, COLOCAR NOME DE SANTA EM ESCOLA, AS SANTAS NÃO TEM NADA A VER COM EDUCAR! E a sua careca está me irritando, o cheiro da sua colônia, tudo! Tchau. E mande um abraço pra minha mãe. E agora eu sei quem é você e sei que você está comendo ela, mas não se incomode porque eu não vou contar pro velho.
- Fransisco! Tá todo mundo olhando pra cá... e... esse negócio da sua mãe... você não vai contar mesmo?
A porta na minha frente abriu e eu sai com tudo. Todo mundo está olhando pra mim mesmo. E eu dei algo praquele filho da puta pensar. E peguei ele no pulo. Nem sei quem ele é realmente.
Olha, o negócio é o seguinte: ano passado eu conheci uma menina que gostava de música e de uma bebedeira de vez me quando. ela sabia das coisas, gostava de ler, entendia o que eu falava. E não falava como uma menina de 17 anos. A droga toda é que a Lívia tinha 17 anos. E um dia estávamos nós dois muito bêbados atrás da escola. Só bebendo e tocando gaita, ela gostava e apreciava de verdade, não como o Antônio, aquele imbecil. Sabe, nada de sujo, só bebendo. Ela era minha amiga, eu gostava daquele menina. Ela parecia um cara, um camarada. Mas os meus caras, os meus camaradas, todo mundo, ninguém pode entender isso. Não me despediram, porque eu sei do que eu tô falando naquela sala de aula. O maluco do meu editor ia ter um troço. Ia achar lindo, 'quanto material pra escrever'. Mas o pai da Lívia tirou ela da escola e me proibiu de vê-la. Ela também achava que eu não escrevia tão bem assim.
E agora eu não posso usar All Star.
Engraçado como as coisas são...
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