segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Oito.

lá estava ela sentada na calçada, faltava pouco pra amanhecer. eles estavam juntos, andando e conversando há algumas horas, mas pareciam minutos. na verdade, pra ela, parecia que ele a conhecia mais do que ela própria e isso a assustava. achava injusto. queria poder dizer o mesmo: 'esse aí eu conheço há alguns dias, estamos conversando pela primeira vez há algumas horas, e já conheço todos os seus mistérios...'. talvez não conhecesse realmente. mas podia enxergar as janelas daquela alma. isso a assustava. ela tentava prestar toda atenção no que ele estava falando, mas não conseguia. não conseguia parar de pensar na estranheza daquilo tudo e aonde aquilo ia dar. planejava, sem ao menos saber o que ele queria dela. olhava naqueles olhos e pensava: 'isso não é justo. como ele pode ter tanto poder sobre si mesmo? e porque só algumas pessoas que conversam com ele por horas e horas e horas conseguem ver que ele não é louco, nem arrogante, nem pedante, nem grosseiro? não é possivel que ele goste de que pensem isso sobre ele. acho que ele não tem escolha...'
ela queria muito entender tudo o que ele dizia, não apenas sobre música, sobre livros, sobre o seu universo. ela parecia saber exatamente o que dizer sobre as dúvidas mais profundas que ela tinha, entender o que ela sentia melhor do que ninguém. ela se sentia nua e sem defesas. mas gostava. ela precisava demais entender o que ele dizia. 'você pode entender algo, imediatamente. mas compreender, é algo muito mais complexo e completo, e pode levar anos', ele disse. ela dizia que entendia, mas sem saber muito bem quando iria compreender. e se preocupava em manter o sorriso e o resto sereno, responder tudo da forma mais surpreendente possível, mostrar pra ele como ela podia um dia compreende-lo.
e a noite tinha passado, e ela não conseguia deixar de pensar que agora ela já se sentia muito melhor do que há algumas horas atrás. e que ela já entendia mais de si mesmo e dele próprio do que no começo daquela caminhada; isso a espantava. 'foram 4 horas. as 4 horas mais complexas, esclarecedoras, bonitas, divertidas e ALIVIANTES da minha vida.'
agora lá estava ela. ela nota ele se mexendo, não entende, até fica meio assustada. então ele deita no seu colo e pega sua mão.
'estou fazendo cocégas?"
ela notara que ele passava seu polegar de um lado pro outro da mão dela. queria responder: 'queria poder sentir isso pra sempre', mas mesmo na sua cabeça essas palavras soavam ridiculas, patéticas, piegas. ao inves disso, riu e disse: 'não, não, é gostoso!'
riam, riam, riam... ela se sentia muito bem. não costumava conversar tanto com desconhecidos, nem sair andando pela madrugada com desconhecidos, nem ir do outro lado da cidade, em um lugar que ela não conhecia, com desconhecidos. entretanto, lá estava ela. e ela não sentia medo. não mais.
há alguns dias, tudo a assustava, e ela via tudo o que fazia como a última coisa que faria em muuuuito tempo. sabia que ia embora. se torturava pensando nisso o tempo todo. o tempo todo.
menos naquelas horas, naquela madrugada. ela tinha se esquecido.
e ele a lembrava: 'quando você vai embora?'
'dia 25 de janeiro'
'eu vou no final de fevereiro. aí a gente pode se encontrar lá, né? tomar umas cervejas, ouvir um rock and roll!'
ela sorria sem ao menos perceber o movimento dos seus lábios. passava seu polegar pela palma da mão dele também.
então ele levantou, bruscamente.
'vamos ouvir música na minha casa?'
'aaaaah... não sei... melhor não, está tarde! tenho que voltar pra casa. tem gente me esperando lá'
e então, de repente, ela sabia o que ele ia fazer em seguida. e ele fez.
e ela não sabia mais o que fazer, nem o que responder.
se levantaram, e deram as mãos. ela parou por um instante, tentando entender a verdadeira importância do seu próximo passo, o primeiro de muitos.
e assim que realmente o deu, compreendeu.

assim foi a madrugada de 15 de janeiro e 2009.


e já faz oito meses!

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